Um dia, um adeus!

Há 30 anos conheci um cara que durante 15 anos foi um grande companheiro, um grande amigo. 
O parâmetro que ele usava para começar uma amizade era o esporte. Eu namorava a sua filha, era um moleque meio maluco e logo em uma das primeiras vezes em que fui à sua casa, perguntou:
“_Você joga futebol? Torce para que time?”
_Seleção! Seleção Rubro-Negra!
“_Está com tênis aí no carro?”
_Sempre tem uma roupinha de goleiro!
“_Goleiro? Puta que o pariu… a pelada lá é forte!”
_Bóra!
Lembro de uma bola chutada de trivela. Ele estava na zaga, era baixinho e estávamos ganhando de 2 a zero. Se posicionou para cabecear e eu sabia que ia faltar uns centímetros. Vejo, 30 anos depois, em câmera lenta, mas foi uma patada de elefante, fui nela e ele também. A bola raspou na cabeça dele e subiu, da meia altura para o ângulo. Peguei, caí com ela, levantei e saí jogando. Ele passou 15 ano falando do meu “teste” para genro.
Em outra ocasião, sintonia perfeita, viajávamos para Búzios sempre de madrugada e em uma dessas viagens nos deparamos com um Chevettinho pegando fogo na beira da estrada, e uma família desesperada do lado de fora. Estacionamos juntos no acostamento, ele 100 metros na minha frente, e saímos da mesma forma de dentro do carro, extintor em uma das mãos, e arma na outra, afinal, eram 3 horas da manhã. Apagamos o fogo e ajudamos a família.
Em outra dessas viagens, essa foi engraçada, estávamos no mesmo carro e havia um caminhão que acendia um farol de milha para trás toda vez que ele pedia passagem. Ele disse:
“_Luciano, consegue acertar esse farol, se eu abrir o teto solar?”
_Rsrsrsrsrsrs, dou meu rabo se errar esse tiro! É 357 velho!
A gritaria foi geral dentro do carro. Não dei o tiro, mas que foi divertido, foi.
Por minha influência ele passou a ajudar a SUIPA, e por influência dele comecei a jogar tênis. Perdi durante um ano inteiro, até um dia em que o jogo estava 5 a 0 para ele e ele disse que quem perdesse ia no posto do Golden Green compra coisas para o lanche. Cara, quem me conhece sabe que odeio ir à rua comprar coisas, dar carona e frequentar programas de índio. Virei o jogo, na força e na raça. Comecei um festival de porradas no fundo da quadra, seguido de largadinhas na rede. Ele tinha uns 20 anos a mais do que eu, metade do tamanho e metade da força, mas sabia jogar da forma correta. Tênis é cabeça, emoção, cérebro. Se você perde a confiança, perde o jogo. Naquele dia, venci no tie break e nunca mais perdi.
Roberto ia ao Maracanã em todos os jogos do Flamengo. Até sozinho ele ia. Lembro muito bem daquele Flamengo x Vasco em 2001, gol do Pet no finalzinho. Estávamos em minha casa, vendo um pay-per-view. Ele levantou e começou a gritar:
“_Vai guardar! É campeão!”
Eu, cético, falei:
“_Muito longe. O goleiro dos caras tem 2 metros de altura, só se ele botar na gaveta!”
E foi lá mesmo, na gaveta! O que vi a seguir foi um coroa virar menino, chorar, gritar na varanda. Inesquecível esse dia, quase 20 anos depois.
E as partidas de buraco? Jogávamos toda sexta à noite, após o tênis, e ele reclamava da quantidade de coringas que eu comprava, alegando que pelo “índice técnico” eu deveria perder o jogo, porque cada coringa “cagado” deveria me tirar 100 pontos na contagem final. E eu, a cada compra das cartas que ele chamava de “narigudo”, fazia questão de mostrar. Ainda mantenho esse hábito até hoje, se estiver entre amigos. Também jogávamos na Asbac, em Teresópolis. Um frio da moléstia e nós, cedinho, na quadra. Ele me deu uma raquete, que uso até hoje, e vou usar para sempre…
Era como um pai!
Nossa relação não terminou bem, afinal, me divorciei da filha dele! Mas guardo com carinho as recordações, e fiquei arrasado, anteontem, quando soube que ele morreu em dezembro do ano passado. Ontem me despedi dele, pelo canal da fé, da maneira que sempre me despedi dos amigos, da Leiria, do Afonso, da Paula, do Sidney, do Drasto, do Sidney Serralheiro, do Seu Afonso, do Zé Antonio, do Jorginho, da Bebel, do Renato e de outros amigos que já foram para o andar de cima. Sou novato nessa coisa de falar com Deus, mas cada um tem a sua maneira de fazer isso!
Vai lá, amigo! Fique com Deus!
E antes que alguém me critique por eu me afirmar, a vida toda, ateu, vou dizer uma coisa importante: quando você acha que vai morrer, se agarra a qualquer sentimento, não palpável, que possa lhe dar um sopro de vida, lhe garantir um futuro. Eu passei perto da morte 5 vezes ao longo da vida. Em 2 delas estava no mar e achei que ia conseguir viver, afinal, se tem algo que sei fazer bem é nadar. Hoje não entro nem na beirinha. Quando dei PT no carro sei bem quem me salvou. E das outras 2 vezes, também sei.
Mas essas resenhas deixo para depois, afinal, o texto é uma homenagem a um velho amigo a quem eu admirava!
Obrigado por tudo!

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