Estudei em um colégio que era como um reformatório para ricos. Lá o filho do fulano ou a filha do cicrano podiam tudo, e a diretora não estava nem um pouco preocupada com o bullying, que à época chamava-se "implicância" e aparentemente não fazia diferença para ninguém que não fosse vítima.
Entrei no Instituto Souza Leão em 1979. Tinha 12 anos e era um moleque magricela que ainda usava uma maldita franjinha. Logo no primeiro dia já levei uns cascudos por conta da franja, e roubaram meu lanche. Piorou bastante ao longo do tempo e, acreditem, a vítima sempre pensa em meios para se defender, e esses meios envolvem coisas que estão ao alcance das mãos.
Não foram poucas as vezes em que levei facas, canivetes, pedaços de pau. Só que eu - que sempre fui destemperado - nunca tirei tais coisas da mochila por medo de fazer alguma merda grande. Eu apanhava, mas pensava.
Certa vez uns 3 ou 4 moleques me seguraram. Um deles se chamava Chico e usava aparelho para surdez... lembro bem de como era ruim. Soprou rapé, de uma lata, nos meus olhos. Fui à sala da diretora, que classificou o ato como "brincadeira de criança".
Passei semanas pensando em como conseguiria me vingar, até que o piscineiro da minha casa me deu uma latinha de filme cheia de pó-de-mico. Botei uma parte no capuz do casaco do tal Chico (que foi para o hospital), e o resto no ventilador. Ninguém nunca descobriu...
Uma vez - lembro como se fosse hoje - estava na aula de artes com a Ana Richa, que anos depois se tornaria uma grande jogadora de vôlei. A atividade era livre e eu fiz um tacape. Fui mandado para a psicóloga, expliquei meu problema e ela disse que era frescura...
Eram muitos os que apanhavam, e sempre os mesmos os que batiam. O problema, ou a solução, é que eu comecei a crescer. No meu penúltimo ano, cheguei certo dia, pelo portão do estacionamento, para evitar os encrenqueiros, mas um deles, Marcos Arcoverde, Lourinho espirito-de-porco, veio correndo atrás de mim. Dei de cara com uma grade fechada, e o jeito era sair na porrada. Eu tinha um volume da Delta Larousse na mochila, e dei "no meio dele". O moleque girou e caiu. Dei dois bicos nas costelas dele, disse uns palavrões e fui embora. Nunca mais apanhei desse grupinho.
Uns 2 anos mais tarde, depois de muito apanhar, muito reagir, reclamar e desistir de reclamar, já na fase da revolta (sim, tive a fase...), eu estava na sala, desenhando uma caveira no braço de uma menina linda... Ana Maria... e 3 caras - desses nunca vou esquecer - começaram a jogar pedaços de giz em mim. Tuca, Tatau e Guilherme. Tatau era surfistinha, metido a pegador, e ex-namoradinho da tal garota. Jogou o apagador e me tirou do sério. Enfiei a porrada nele. Mas não essas briguinhas de YouTube. Briga de verdade. Só soco na cara. Ele ficou tão perplexo com a minha reação, e eu com a frouxidão dele, que pediu ajuda. Tuca e Guilherme entraram juntos na briga, e Guilherme acertou Tuca (moleques burros) com um murro no olho. Ele caiu e ficou gritando que estava cego. Acabou a briga, e o bullying.
Nunca mais nenhum encrenqueiro sequer chegou perto de mim. Mas o soco inglês ia no bolso... escondidinho.
Obviamente se a Escola tivesse tomado alguma providência, eu não teria quebrado o nariz do Tatau e nem apanhado durante anos. Ensino meu filho a reagir e a bater. Ele é enorme para a idade, mas é bobo.
Lendo sobre o menino de Goyanases, entendo que ele sofreu, mas também vejo um descaso por parte da direção da Escola - que sabia das agressões e não tomava nenhuma providência. Quanto a matar os colegas, me parece alguma psicopatia. Era adorador do Hitler e lia livros de satanismo. Isso não é normal.
Talvez os pais nunca tenham percebido que o filho tinha problemas. Sei lá. Acho que hoje em dia há muita incitação da violência, nos games, desenhos animados, vídeos da Internet.
Preste atenção no seu filho, no que ele assiste, no que sente, no quanto precisa de apoio. E tranque as armas em um cofre. O atirador da Escola pegou a do pai em cima do armário...
Texto de 13 de fevereiro de 2018
Comentários